A premissa subversiva de “The Boys”, série da Amazon Prime Video baseada nos quadrinhos de Garth Ennis e Darick Roberts, aborda temas controversos como poder arbitrário, corrupção e manipulação da mídia, trazendo um uma visão diferente e cínica sobre super-heróis num mundo aparentemente esgotado do gênero e suas franquias cada vez mais saturadas. A série satiriza não apenas filmes e quadrinhos de super-heróis como nossa sociedade atual. Entendo que a trama repleta de violência, escatologia, cenas gore e sexo explícito não agrada a todos. Confesso que a mim também não, mas a ousadia da produção e das campanhas promocionais, mesmo que polêmicas, são dignas de destaque, saindo totalmente do lugar-comum.
A série foi desenvolvida pelo showrunner Eric Kripke (Supernatural), que também atua como escritor e produtor executivo, junto com Seth Rogen e Evan Goldberg. Para os produtores de “The Boys”, se de fato os super-heróis existissem no mundo real seriam corruptos, autocentrados e violentos, ou seja, verdadeiros sociopatas e ególatras. A premissa é que dinheiro, fama e poder corrompem. Na série, a Vought é a multinacional encarregada pela gestão da equipe de super-heróis conhecida como “Os Sete”. Distorcendo ética, ciência e a opinião pública, esta grande corporação visa resultados financeiros e a maximização dos seus lucros a todo custo, sem que nada nem ninguém a detenha. Para garantir isso, eles contam com os super-heróis trabalhando em prol dos seus interesses.
Neste momento de “fadiga dos super-heróis”, “The Boys”, do Prime Video, evitou cair nas mesmas armadilhas de outras grandes franquias da DC e da Marvel. O que a campanha de marketing que a Prime Video está fazendo de forma bem divertida e criativa é mostrar como seriam os super-heróis em nossa cultura de celebridades. A Amazon criou anúncios falsos de endosso e comercializou a Vought International como se fosse uma marca real, turbinando sua estratégia de narrativa transmídia com comerciais de TV, telejornais e até entrevistas dos super-heróis com apresentadores renomados da vida real.
As desvirtudes dos heróis, a dicotomia entre o bem e o mal, os estereótipos, os arquétipos, além de temas que envolvem questões estruturais, culturais, filosóficas e humanas, faz com que a série seja tão pertinente nos dias atuais. “The Boys” promove reflexões em torno da aproximação entre ficção e realidade. Por exemplo, assim como as celebridades, todo super-herói apoiado pela Vought é obcecado em conseguir melhores contratos, acordos de patrocínio e índices de aprovação.
Tendo estreado no serviço de streaming em 2019, “The Boys” chamou a atenção e virou instantaneamente um produto de destaque da Prime Video. O programa não faz rodeios em sua sátira baseada em paródias do gênero e da sociedade americana capitalista. Esse tom ácido e irreverente se estende também às suas incríveis campanhas promocionais, subvertendo o universo dos heróis.
O marketing online de “The Boys” usa e abusa do humor satírico para criticar o cenário capitalista atual. Juntamente com os trailers, os vídeos de marketing zombam frequentemente de grandes empresas da vida real, como X (ex-Twitter), Spotify e até mesmo Amazon, usando a paródia para destacar a ganância excessiva delas.
“The Boys” nunca se esquivou de abordar temas políticos, com temporadas anteriores apresentando personagens e histórias inspiradas em figuras e eventos políticos do mundo real. Para o lançamento da 4ª temporada, a série tem feito uma paródia das eleições americanas com cartazes concebidos especialmente para imitar os anúncios de campanhas políticas. Eles usam o slogan “Make America Super Again” numa referência direta ao slogan usado pelo ex-presidente Donald Trump “Make America Great Again”, traçando paralelos explícitos entre o personagem Homelander e Trump.
Um fato curioso foi que a Amazon lançou o pôster que anuncia Homelander como a pessoa que “tornará a América super novamente” um dia após a decisão da Suprema Corte Americana de permitir a candidatura de Trump nas eleições presidenciais de 2024. O pôster foi compartilhado nas redes sociais com a legenda “Wanker-in-chief” (“idiota-chefe” na tradução literal)
Antes disso, “The Boys” já tinha zombado de Donald Trump numa das peças promocionais de lançamento da 4ª temporada . O ex-presidente lançou uma nova linha de tênis, ao preço de US$ 399. Isso levou a corporação fictícia de “The Boys”, a Vought International, a compartilhar um anúncio de paródia do Homelander lançando o High-Tops oficial. Os sapatos falsos foram avaliados em US$ 777, e a brincadeira é que todos os lucros iriam para o fundo de defesa legal do super-herói. Apenas lembrando que Homelander enfrenta um julgamento pelo assassinato de um apoiador da heroína Starlight durante um comício político no final da 3ª temporada de “The Boys”.
A decisão de incorporar essas mensagens políticas abertas na campanha promocional da 4ª temporada de “The Boys”, numa clara estratégia de marketing de oportunidade, reflete o compromisso da série em ultrapassar limites na narrativa e estimular o buzz (e polêmica, claro) nas redes sociais.
Na minha opinião, um dos destaques da campanha até agora foi o teaser lançado durante o Super Bowl. Em vez de cenas da série, foi produzido um comercial fictício da poderosa companhia Vought. O anúncio intitulado “Uma Carta de Amor à América” é uma paródia precisa de comerciais que brincam com o sentimento de patriotismo americano e professam valores universais numa linguagem bem clichê terminando com a mensagem: “pela liberdade, pelo futebol americano, pela família e pelos cavalos” para vender o energético “Turbo Rush” da empresa Vought. Para quem não se lembra, “Turbo Rush” também foi usado para promover a terceira temporada do programa em 2022, como uma paródia de um anúncio com a Kendall Jenner para Pepsi que foi retirado do ar após ser criticado pela banalização de movimentos como o Black Lives Matter. Com o comercial “Uma Carta de Amor à América”, “The Boys” provou mais uma vez que é imbatível quando se trata de deboche.
Por falar na Vough, vale destacar o canal “Vought International” do YouTube. Ele é sensacional e serve como uma forte ferramenta promocional da série. Além de conter clipes divertidos e material-bônus para os fãs de “The Boys”, os vídeos do canal também frequentemente sugerem situações futuras da trama e dos personagens. Após o final dramático da terceira temporada de “The Boys”, o canal foi inundado com paródias de infomerciais corporativos da Vought defendendo as ações de Homelander, desacreditando personagens como Starlight e até produzindo um “In Memoriam“, nos moldes do Oscar, para a Rainha Maeve.
No mundo de “The Boys, a 4ª temporada contará com Victoria Neuman e Robert Singer concorrendo a vice-presidente e presidente, respectivamente. Existe até um site oficial da Singer-Neuman que conta suas próprias histórias ficcionais, bem como um vídeo no qual Neuman faz a citação sobre o “Supe Lives Matter” em sua campanha eleitoral. É uma contradição que a personagem pareça se importar com a causa, já que ao final do primeiro ano de “Gen V”, Neuman rouba um vírus capaz de aniquilar qualquer super-herói.
A quarta temporada de The Boys estreará no Prime Video em 13 de junho de 2024. As três temporadas anteriores estão disponíveis na plataforma.
Veja o divertido teaser da quarta temporada exibido durante o Super Bowl:
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