“Usamos a música para nos tornar inteiros – para equilibrar as fraturas dentro de nós mesmos”. Esta é a frase que abre o trailer de Joker: Folie à Deux (Coringa: Delírio a Dois) . De fato, a música é um elemento essencial do trailer do filme que usa What the World Needs Now Is Love, música de Burt Bacharach e Hal David, que ficou famosa em 1965 na voz de Jackie DeShannon. A canção ajuda a ilustrar e a conceituar magnificamente o clima de romance e devaneios de Arthur/Coringa e de Harley/ Arlequina.
Um fato curioso: Folie à Deux é um termo em francês (em português significa “loucura a dois”) utilizado para denominar um distúrbio psiquiátrico raro. Trata-se de um “transtorno delirante induzido em que duas pessoas dividem uma mesma ilusão ou delírio compartilhado.”
No trailer, vemos que Coringa encontrou uma parceira não apenas no amor e no crime, mas também na música. A cantora e atriz Lady Gaga interpreta a nova versão de Harley Quinn ao lado de Joaquin Phoenix, que ganhou um Oscar pelo filme original.
Os olhos de Arthur Fleck/Coringa e Harley Quinn parecem se encontrar enquanto ela participa de um grupo de canto no Asilo Arkham, onde ele foi deixado no final do filme de 2019. A dupla se conhece e se apaixona, antes de aparentemente escapar e formar uma dupla musical. “Vamos sair daqui”, ela sussurra, antes que os dois sejam vistos em uma sequência de dança no telhado. Depois vemos os dois continuando a dançar despreocupadamente enquanto veículos de emergência correm na direção do caos que acabaram de causar em Gotham City. Em um clipe, eles atuam como Joker & Harley em um programa de TV com banda e backing vocals.
Uma das cenas mais famosas do primeiro filme foi quando o Coringa desceu uma escadaria dançando. No novo trailer, Harley é vista subindo os mesmos degraus. Em outro trecho, ela e o Coringa imitam sua dança original enquanto descem o que parecem ser os degraus de um tribunal, com multidões comemorando em ambos os lados. Em outro momento, Harley, usando vestido de noiva branco e véu, dança pelo corredor até uma capela, onde o Coringa está esperando em um terno branco, aparentemente acompanhado por backing vocals como damas de honra. Esta é uma das várias sequências de fantasia que lembram os clássicos musicais de filmes de Hollywood.
O comediante e ator britânico Steve Coogan aparece no trailer como uma espécie de figura de autoridade que pergunta a Arthur/Coringa: “O que mudou?” “Vou lhe contar o que mudou – não estou mais sozinho”, ele responde.
Depois de causar uma tremenda confusão, com tumultos nas ruas, uma explosão em uma sala lotada com câmeras de TV e o Coringa e Harley correndo de mãos dadas para fora de um prédio em chamas, o trailer termina silenciosamente com Harley aparentemente visitando Arthur na prisão. Usando seu batom vermelho, ela desenha uma linha curva no vidro entre eles e diz a ele: “Quero ver quem você é de verdade”. O rosto taciturno de Phoenix muda lentamente e abre um grande sorriso, que se alinha com o batom que estava fora de foco para de repente se tornar a famosa boca vermelha do Coringa. Uma sacada incrível, fechando de forma magistral o trailer.
Segue o trailer:
Já falei algumas vezes sobre a importância da música em trailers e promos. Vou me repetir um pouco. Escolher a música certa é uma arte em si. Para a minha alegria, atualmente compositores são cada vez mais procurados por “trailerização”, retrabalhando faixas existentes de artistas para maximizar seu impacto em trailers de filmes, games e programas de TV.
Uma “trailerização” icônica na minha opinião foi a da trilha a faixa Lux Aeterna do filme Requiem For a Dream, composição do músico inglês Clint Mansell, gravada pelo Kronos Quartet. O tema foi reorquestrado para o trailer de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres e é conhecido pelo nome Requiem for a Tower, produzido pela Corner Stone Cues. O sucesso foi tão grande, que a versão foi utilizada em trailers de outros filmes, incluindo Babylon A.D., O Código Da Vinci, I Am Legend, Sunshine, e Valley of Flowers. Ela também apareceu nos videogames Total Miner: Forge, Assassin’s Creed, e em vários comerciais e anúncios de TV e em eventos esportivos. O uso do tema se estendeu a ponto de ser intercambiável com o nome Requiem for a Dream.
Além de criar o clima, uma música costuma ser selecionada para um trailer porque a letra transmite os temas narrativos do filme. Já falei sobre o excelente cover de No Woman No Cry no teaser de Black Panther: Wakanda Forever com a voz da artista nigeriana Tems. Um outro bom exemplo foi o uso da canção It’s Nice to Have a Friend, de Taylor Swift, para o diabólico thriller da boneca M3GAN.
O clássico de Elton John, Goodbye Yellow Brick Road, também merece destaque na versão feita para Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania.
No trailer de O Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania da Marvel, à medida que os heróis percebem o tamanho da situação em que se meteram, o design de som enfatiza Elton John cantando: “Eu devia ter ficado na fazenda/Eu devia ter ouvido meu velho pai.”
São muitos os exemplos. Segue o remix de Guns N’ Roses para o filme de vingança de Jason Momoa no Netflix, Sweet Girl.
“Trailerização” é um termo relativamente novo. Vão desde covers instrumentais até os remixes, onde o material de origem é alterado.
O processo de “trailerização” agora é tão comum que mesmo quando um trailer usa a trilha sonora original do filme ou série, ela também é normalmente ajustada. Veja um exemplo disso no trailer de House of the Dragon em que o tema de Daenerys Targaryen, composto por Ramin Djawadi para a série Game of Thrones, também ganhou uma nova versão.
Muitos apontam para o trailer de The Social Network, de 2010, que apresentava um coro feminino cantando Creep do Radiohead, como a origem do que se tornou a tendência de “trailerização”.
Seu sucesso incitou uma enxurrada de trailers com covers de músicas conhecidas e remixes exclusivos. São inúmeros trailers com ótimos covers. Existem até agências especializadas em fazer versões de músicas famosas que são utilizadas em trailers, games e em filmes. Na cena de abertura do filme Viúva Negra da Marvel, por exemplo, foi usado o cover do clássico do Nirvana Smells Like Teen Spirit na versão gravada por Malia J e o coletivo Think Up Anger em 2015. Ficou o máximo.
Um cover que foi muito bem utilizado em trailer também, na minha opinião, foi o de Losing My Religion do R.E.M na interpretação de Bellsaint para promover a segunda temporada da série de TV Chucky.
Sensacional também foi a modernização de Heart of Glass da Blondie para House of Gucci.
Para o trailer de Us de Jordan Peele, foi escolhido o rap da dupla de hip-hop Luniz numa interpretação em clima melancólico. Na “trailerização”, a música foi desconstruída para depois ser construída novamente, ressaltando a atmosfera profundamente perturbadora do filme.
Para o filme My Policeman da Amazon foi utilizada Sea of Love da Cat Power, cantada por Chan Marshall.
Veja:
A série Stranger Things da Netflix recebeu muitos elogios por trazer de volta a nostalgia pelos anos 80. Quem não se lembra da música Running Up That Hill de Kate Bush na quarta temporada? Incrível, né? Por falar em Stranger Thing, uma das minhas “trailerizações” prediletas de música foi a escolha de Separate Ways da banda Journey naquele remix sinistro para o trailer do primeiro volume da quarta temporada.
Ainda sobre os anos 80, a diretora Patty Jenkins canalizou a atração da estética deste período no filme Mulher Maravilha: 1984 usando um remix instrumental de Blue Monday. Está longe de ser um grande trailer, mas achei interessante a ideia de usar uma música do New Order.
Tem havido interesse também nos sucessos do rock alternativo dos anos 90, com o remix da música In the Meantime da banda Spacehog aparecendo no trailer de Guardian of the Galaxy Volume 3.
Nos trailers contemporâneos, a narração onisciente praticamente desapareceu e há menos diálogos do filme. Portanto, eles podem ser mais conceituais em sua narrativa. É mais uma questão de criar um sentimento, uma emoção através da música certa que irá inspirar e ditar o ritmo, definir o tom e informar o personagem e a história.
A menos que você saiba onde procurar na internet, as peças feitas pelos compositores de trailers são em grande parte não creditadas e, às vezes, até por questões contratuais. As “trailerizações” são criadas para viver exclusivamente no trailer. Elas funcionam primordialmente como peças de marketing. E que ferramentas poderosas! A escolha da música certa pode ajudar a transmitir o tom, o estilo e a mensagem do filme de forma mais eficaz do que apenas imagens e diálogos. “A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.” (Arthur Schopenhauer)
E aí? Alguma “trailerização” de música famosa que te marcou em particular? Compartilhe comigo.
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