Por que gostamos de sentir medo?

“Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso não tem a ver com a coragem”. (Jean-Paul Sartre)

Outubro costuma ser o mês em que nossa fascinação pelo macabro atinge seu ápice, muito por conta do Halloween. No entanto, para muitas pessoas, o interesse pelo lado sombrio não se limita a essa época.

De fato, o chamado “consumo contra hedônico” — a busca por experiências e produtos que evocam emoções negativas — vem crescendo nas últimas décadas, tornando-se uma forma extremamente lucrativa de entretenimento. 

Nesse contexto, estúdios como a A24 têm se destacado, com um portfólio repleto de filmes de terror aclamados, como Hereditário, A Bruxa, Midsommar e Fale Comigo. Essa estratégia consolidou a A24 como uma força no gênero, ao ponto de a empresa estar negociando os direitos da franquia Halloween e investindo na produção de uma série sobre Sexta-feira 13, outra icônica marca do terror.

É inegável que há uma legião de fãs do gênero. Seja em séries de sucesso como American Horror Story e The Walking Dead, ou em parques temáticos e livros de Stephen King, o apelo por experiências assustadoras é intenso. Mas, por que somos atraídos por filmes de terror? Por que gostamos de sentir medo? A ciência pode nos oferecer algumas respostas. 

Uma razão é a busca por estímulo. O terror provoca uma mistura de reações físicas e emocionais que nos ativam de forma paradoxal: enquanto o medo pode gerar ansiedade, ele também traz excitação e até alegria. Assistir a um filme assustador ou ler uma história de possessão demoníaca pode desencadear reações químicas no corpo, liberando adrenalina e gerando sensações intensificadas. Essas reações fisiológicas explicam parte do fascínio pelo gênero. 

Contudo, a explicação não se resume à adrenalina. Embora algumas pessoas sejam movidas pela busca de fortes sensações, muitas outras assistem a filmes de terror por motivos diferentes, como explorar o lado mais sombrio da condição humana em um ambiente seguro e controlado. Esse tipo de entretenimento nos permite experimentar cenários impossíveis na vida real — como um apocalipse zumbi — e, ao mesmo tempo, enfrentar nossos medos de maneira indireta e lúdica. 

Atração pelo terror também pode estar ligada a traços de personalidade. Pesquisas mostram que pessoas com maior necessidade de emoções intensas e aquelas com alta abertura a novas experiências são mais propensas a consumir conteúdo de terror. Por outro lado, quem possui maior empatia tende a evitar o gênero, pois sente mais intensamente o sofrimento dos personagens. Outro ponto intrigante é que o terror pode funcionar como um meio de autoavaliação. Ao enfrentar experiências assustadoras, muitos relatam ter aprendido algo sobre si mesmos, sentindo-se mais confiantes ao perceber que conseguem lidar com o medo. 

De fato, estudos mostram que, ao regular nossas reações — como cobrir os olhos, imaginar que não é real ou tapar os ouvidos em uma cena particularmente assustadora —, ajustamos o nível de imersão conforme nosso conforto, o que aumenta o prazer da experiência.

Por fim, a teoria da “estrutura protetora” sugere que nos divertimos com o terror apenas quando sentimos que estamos seguros, podemos nos desapegar emocionalmente e acreditamos que temos controle sobre a situação. Sem esses mecanismos de proteção psicológica, a experiência deixa de ser agradável, o que pode explicar por que algumas pessoas evitam o gênero. 

“Nosso senso de controle pode servir como uma forma de estrutura psicológica de proteção, um pré-requisito para experimentar o prazer do consumo de terror”, disse Professor Haiyang Yang, cientista comportamental na John Hopkins Carey Business School. 

Curiosamente, pesquisas indicam que pessoas em países com maior PIB tendem a consumir mais terror do que outros gêneros, possivelmente porque possuem maior sensação de controle sobre suas vidas — um fator essencial para extrair prazer de situações assustadoras. 

Trailers de terror se destacam por sua singularidade, sendo, por vezes, mais longos e complexos, combinando psicologia e narrativa para gerar expectativa e prometer uma experiência intensa.

Quando bem executados, podem ser verdadeiras obras de arte, contando uma mini-história que deixa o público apavorado em poucos minutos.

A criação de um trailer de terror eficaz envolve um equilíbrio delicado entre construir tensão, brincar com as expectativas e entregar um clímax surpreendente, sem revelar demais. A sutileza e o controle do ritmo são essenciais, alternando entre momentos de inquietação crescente até o ápice assustador. Além disso, é crucial evitar o excesso de violência explícita para alcançar um público mais amplo, mantendo a atmosfera de suspense com choques pontuais e bem dosados.

Com essas técnicas em mente, confira alguns dos trailers mais aterrorizantes de 2024. Feliz Halloween! 

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