A Música do Horror: Trilha Sonora e Efeitos Sonoros que Transformaram o Terror em Arte


O Halloween, o Dia de Todos os Santos e o Dia dos Mortos (ou Dia dos Finados) ocorrem no mês de novembro, o que parece mais que coincidência. Dizem que, nesse período, o véu entre o nosso mundo e o dos espíritos se torna mais tênue. Ai, que medo!

A energia da temporada nos atrai para o sobrenatural — e é justamente nesse clima que tantos filmes de terror são lançados, principalmente por conta do Halloween, comemorado no dia 31 de outubro, e que ganhou popularidade no Brasil nos últimos anos. Mas, a verdade é que essas produções não se limitam apenas a essa época, ao ponto de Hollywood já estar com medo (que ironia) da fadiga do gênero.

Para mim, filmes de terror quase sempre foram sinônimo de trilha bonita. Nunca entendi direito a correlação, mas sempre me chama a atenção a trilha incidental dos filmes do gênero. Na maioria das vezes se destacam e ficam na nossa cabeça (além das cenas assustadoras) quando saímos do cinema.

No Horror, mais do que em qualquer outro gênero, a trilha sonora é fundamental para criar uma experiência inesquecível e intensa. A música não apenas intensifica o suspense e o medo, mas também apoia a narrativa. Grandes diretores sabem disso e colaboram estreitamente com seus compositores. Pense nos clássicos de Alfred Hitchcock sem as trilhas de Bernard Herrmann ou no impacto que John Williams trouxe aos filmes de Steven Spielberg e George Lucas. Danny Elfman dá vida ao estilo excêntrico de Tim Burton, enquanto John Carpenter, ciente do poder da música, frequentemente compunha suas próprias trilhas para capturar sua visão.

Além de criarem uma atmosfera sombria, trilhas de filmes de terror influenciaram também a cultura musical, popularizando o uso de sintetizadores. Esse estilo inspirou bandas como Massive Attack, Tricky e Portishead, criadoras do trip-hop — um gênero sombrio, downtempo, minimalista.

Os anos 1970 marcaram a história com trilhas icônicas que ainda assustam, mas não podemos esquecer dos clássicos dos anos 1960 e 1980, como O Bebê de Rosemary(1968), Psicose (1960), Aliens (1986) e O Iluminado (1980).

Mais recentemente, a trilha de A Maldição da Mansão Bly, (2020), dos Newton Brothers, foi um destaque. Os compositores inclusive homenagearam o clássico tema Willow Waly de Os Inocentes (1961), incluindo os acordes em uma das faixas. Na minha opinião uma das trilhas recentes mais bonitas do gênero terror.

Ouça a versão utilizada no teaser. Absolutamente magnífica:

Também não podemos deixar de destacar o impacto dos efeitos sonoros. Em cenas de terror, o silêncio e o som se misturam para criar tensão: imagine uma rua deserta onde só se ouvem os passos, até que surge um assassino. Com poucos sons, cenas assim são construídas para brincar com nossas emoções, preparando o espectador para o susto. Compositores usam até sons de baixa frequência, como infrassom, para provocar desconforto, criando um terror subliminar.

A trilha pode ser tão poderosa quanto a imagem — um exemplo disso é A Guerra dos Mundos, de Orson Welles, que, ao simular uma invasão alienígena no rádio, assustou ouvintes a ponto de muitos acreditarem ser real.

As trilhas sonoras têm mesmo um papel essencial na criação da atmosfera em filmes de terror. Segue abaixo uma seleção de trilhas de terror que deixaram sua marca no cinema e na cultura:

1.         Psicose – Bernard Herrmann (1960)

A trilha sonora de Psicose, composta por Bernard Herrmann, é tão icônica quanto o próprio filme de Alfred Hitchcock, tendo revolucionado o terror. A utilização de um conjunto de cordas, em vez de uma orquestra completa, cria uma sonoridade crua e angustiante. O som cortante e repetitivo das cordas na “cena do chuveiro” é particularmente memorável, aumentando o impacto de cada golpe e simbolizando a tensão psicológica. Herrmann criou uma música que, mesmo fora do contexto do filme, ainda causa arrepios.

2.         Jaws – John Williams (1975)

Com apenas duas notas, John Williams conseguiu transmitir o terror invisível que ronda as águas em Jaws (Tubarão). A repetição crescente e lenta daquelas duas notas cria um senso de ameaça iminente, deixando o espectador desesperado, na expectativa do pior. É uma composição engenhosa em sua simplicidade, pois capta perfeitamente a sensação de estar na presença de uma criatura mortal sem que esta precise aparecer em cena. Williams elevou o suspense e deu uma nova dimensão ao filme, que rapidamente se tornou um marco no cinema.

3.         The Omen – Jerry Goldsmith (1976)

A trilha de The Omen (A Profecia), de Jerry Goldsmith, usa coros e letras em latim para criar uma atmosfera de terror religioso e sobrenatural. A combinação de vozes e orquestrações dramáticas passa a sensação de que forças sombrias estão em jogo, preparando o público para o horror que se desenrola na história. O tema “Ave Satani” se tornou um dos símbolos musicais do terror, com um poder sinistro que permanece impactante mesmo décadas depois de seu lançamento. Goldsmith recebeu um Oscar por essa trilha, a única vitória de sua carreira. Merecidíssimo!

Posteriormente, Jerry Goldsmith compôs a trilha do clássico Poltergeist – O Fenômeno, que concorreu ao Oscar em 1982. O produtor do filme, Steven Spielberg chegou a comentar: “A música é tão intensa que talvez o período noturno não seja o mais indicado para ouvi-la se você assistiu ao filme”.

4.         Halloween – John Carpenter (1978)

John Carpenter não só dirigiu como também compôs a trilha sonora de Halloween, e o resultado foi um dos temas mais reconhecíveis do terror. O tema principal, com seu compasso 5/4 e sintetizador minimalista, é quase hipnótico, funcionando como uma assinatura musical para o assassino Michael Myers. Carpenter definiu uma estética sonora para o horror que influenciaria toda uma geração de filmes dos anos 80, e seu trabalho ainda assombra o público até hoje.

5.         Candyman – Philip Glass (1992)

A trilha de Candyman, composta por Philip Glass, é uma combinação de piano gótico e coros melancólicos que captura o lado trágico e assombroso do personagem. Glass trouxe um tom clássico e sofisticado para o terror, criando uma música que é ao mesmo tempo bela e aterrorizante. O tema principal é romântico e fúnebre, ideal para a história do protagonista, um homem atormentado pela perda e pelo ódio. A trilha sonora de Glass acrescenta uma profundidade emocional ao filme, fazendo com que o terror seja tanto psicológico quanto sensorial.

 6.         Suspiria – Goblin (1977)

Provavelmente o mais famoso filme de terror “giallo” dos anos 70, Suspiria, de Dario Argento, ainda é um marco. Argento contratou a banda de rock progressivo Goblin para criar um som único e inquietante, que, junto com visuais alucinantes e ultraviolência gráfica, resulta em uma experiência infernal. A trilha é elogiada pela crítica e pelo público, e seu impacto no terror persiste até hoje.

 7.         Bram Stoker’s Dracula – Wojciech Kilar (1992)

A visão grandiosa e teatral de Francis Ford Coppola para Drácula ganhou ainda mais força com a trilha de Wojciech Kilar. Sua música orquestral cheia de intensidade e melodias góticas complementa o tom barroco do filme, proporcionando uma experiência visual e sonora inesquecível.

 8.         The Thing – Ennio Morricone (1982)

A primeira incursão de John Carpenter em produções de grandes estúdios veio com The Thing, que contou com a colaboração de Ennio Morricone na trilha sonora. Morricone entregou uma trilha minimalista e sombria, com cordas e metais que intensificam a desolação e o terror do filme, casando-se perfeitamente com o estilo de Carpenter.

 9.         A Nightmare On Elm Street – Charles Bernstein (1984)

Quando Wes Craven apresentou Freddy Krueger ao mundo, ele também trouxe uma trilha eletrônica sinistra criada por Charles Bernstein. Com apenas 10 notas, a música é simples e perturbadora, complementando perfeitamente os pesadelos e a atmosfera de horror do filme, transformando-o em um cult do terror.

Um marco, criado por alguém já experiente no gênero, como comprova a sua trilha para O Enigma do Mal, um clássico de terror psicológico dos anos 80.

Mas, na minha opinião, o que ajudou também a eternizar o icônico vilão Freddy Krueger no nosso imaginário e torná-lo um ícone pop foi a música da banda Dokken: Dream Warriors do álbum ‘Back for the Attack’ (1987), escolhida para o terceiro filme da franquia.

 10.         Rosemary’s Baby – Krzysztof Komeda (1968)

A trilha de Rosemary’s Baby é arrepiante, com seus toques agudos de piano e vocais sussurrados, que criam um efeito assustador no tema recorrente. Essa combinação dá ao filme uma atmosfera de crescente desespero e paranoia, acentuando o horror psicológico da trama.

Uma curiosidade é que a música que abre o filme, conhecida popularmente como Rosemary’s Lullaby, é vocalizada por Mia Farrow, protagonista do filme. O suave “lalala” que ela canta é tão inocente, como uma canção de ninar materna, acolhedora e reconfortante. 

Krzysztof Komeda, compositor da música, foi responsável também pela trilha magnífica de “A Dança dos Vampiros”, repetindo a parceria com o diretor Roman Polanski.

 11.         The Exorcist – Mike Oldfield (1973)

A icônica introdução de Tubular Bells de Mike Oldfield ganhou vida sombria ao ser usada em O Exorcista. A composição, que mistura o drama tradicional da música clássica com rock progressivo, combinada com a história de uma menina possuída, ganhou um tom pesado e sinistro, tornando-se referência no terror.

Incrível pensar que a primeira opção de trilha sonora foi composta por Lalo Schifrin (Missão Impossível) e foi descartada por ter uma pegada muito pesada e perturbadora, abusando de violinos frenéticos. Foi durante uma reunião com Ahmet Ertegun, fundador do lendário selo Atlantic Records, que William Friedkin, diretor do filme O Exorcista, ouviu Tubular Bells pela primeira vez e, ao escutar o piano de abertura, decidiu que era perfeita para seu filme. E o resto é história.

 12.        Hellraiser – Christopher Young (1987)

Baseado na aclamada novela The Hellbound Heart do autor britânico Clive Barker, Hellraiser pode ser descrito como uma fantasia gótica sombria, explorando temas macabros que vão do sadomasoquismo ao horror corporal à la Cronenberg. Dirigido pelo próprio Barker, esse filme de baixo orçamento deu início a uma franquia multimídia lucrativa após seu lançamento há três décadas. Originalmente, os produtores contrataram o grupo de música eletrônica Coil para compor a trilha sonora, mas insatisfeitos com o resultado, optaram pelo compositor americano Christopher Young. Com trabalhos bem-sucedidos como A Nightmare on Elm Street 2 e Invaders from Mars em seu currículo, Young aceitou o desafio com confiança, criando uma trilha gótica sombria e deliciosamente “old school”.

Essas trilhas sonoras são exemplos perfeitos de como a música pode amplificar o horror, tornando as histórias ainda mais impactantes e inesquecíveis. Elas nos lembram que o horror não está só na tela, mas também na música, no silêncio e na expectativa.

Lembre-se, a verdadeira magia do medo muitas vezes reside nas notas musicais que ecoam nos cantos mais sombrios de nossa mente…  

Certamente, quem já viu um filme de Sexta-Feira 13 sabe de que sons estou falando. Sempre que Jason Voorhees persegue suas vítimas, aquela música assustadora, que é sua marca registrada, toca, criando o clima perfeito para o ataque. Desde 1980, as pessoas citam esses sons, normalmente dizendo: “Ch ch ch, ah ah ah”, embora, na verdade, sejam “ki-ki-ki ma-ma-ma“, uma contração sonora para os vocábulos Kill e Mother. A música tema composta por Harry Manfredini é tão inesquecível que alcança o mesmo efeito (guardando as devidas proporções) criado por John Williams em Jaws (Tubarão): uma dica sonora de uma morte iminente e fatalmente violenta. Detalhe: Jason foi responsável ao todo por 151 mortes ao longo da franquia para o delírio dos fãs do gênero de filmes de terror slasher.

E aí? Qual trilha de filme de terror mais te marcou ou deu arrepios? Vou adorar saber.

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